Dificuldades econômicas da pandemia despertam criatividade em condomínio

Moradores de um condomínio em Colombo, na região metropolitana de Curitiba, estão dando aula de como empreender em tempos de pandemia.

Afetados com a crise, condôminos dedicam parte do dia para preparar alimentos que serão vendidos para os próprios vizinhos. A rede de solidariedade chega a quase duas mil pessoas, que aos poucos estão superando os problemas financeiros causado pelo novo coronavírus.

O condomínio do bem é o Vida Bella, localizado na Rua Abel Scuissiato, no bairro Vila Yara. São 45 blocos, o que corresponde a 900 apartamentos. Com uma vizinhança bem participativa e com vontade de ajudar ao outro, o comércio é legalizado e atrai a atenção dos moradores. O processo de venda é simples. Anuncia-se no grupo de mensagens do próprio condomínio e o cliente faz o pedido. A entrega ocorre minutos depois seguindo todas as medidas de proteção contra o covid-19 e com um cardápio recheado que vai de salgados, bolos, pipoca, espetinho, sopas, feijoada, hambúrguer, doces, pães e até a tradicional marmita.

Até aí, nada tão diferente, mas com a crise, alguns moradores descobriram o lado empreendedor e desafiaram a temida cozinha. Nairana de Abreu Santos Mansano, 32 anos, é cerimonialista e seu último trabalho oficial foi no dia 14 de março. Depois disto, a pandemia adiou os casamentos e causou um enorme prejuízo no bolso. A partir daí, a renda familiar ficou a cargo do esposo Wesley, supervisor de uma empresa de acabamentos. Com o objetivo de reforçar o caixa da família e ainda seguir com uma ocupação, surgiu a ideia de vender bolos para a vizinhança. “Confesso que fiquei meio sem rumo, mas foi importante dar aquele passo. Os bolos começaram a sair e deu confiança”, comentou Nairana.

Acidente mudou o rumo

Tudo estava indo bem no negócio, mas aí pintou um acidente de trabalho. No fim de março, quando estava finalizando um bolo de chocolate que seria entregue no condomínio, Nairana colocou a mão em uma cobertura quente.

O resultado provocou uma queimadura de segundo grau e foi parar no Hospital Angelina Caron. Além da dor e do custo alto em remédio, Nai ficou preocupada com o acidente e decidiu mudar o cardápio. Saiu dos bolos para a batata suíça.

Fiquei meio traumatizada com tudo e no condomínio tem outras pessoas que também vendem bolo ou doces. Já a batata, todos gostam e dão um lucro maior. Não é fácil descascar o dia inteiro batata, mas está valendo o esforço. Em média, vendemos de seis a oito batatas suíças e já estamos tendo retorno com a Quero Batata, nome da nossa marca.

Digo até, que é possível no futuro, de fazermos um investimento para fazer algo maior”, explicou a nova empreendedora do condomínio que além das batatas suíças, também personaliza canecas, camisetas e máscaras.

Fui demitida e agora?

Além de reforçar a renda mensal, no condomínio Vida Bella tem casos em que a venda se tornou opção de vida. Danieli Monteiro, 39 anos, trabalhava na área de Comunicação do grupo Boticário. Com a pandemia, acabou perdendo o emprego e não deu margem para a tristeza. Avançou em um projeto que tanto queria receber um dia, mas que nunca chegou na sua casa – a de uma cesta gourmet. Produtos frescos, sem industrialização e com o charme da regionalização como diferencial.

Aí surgiu a Sabores da Dani, que já ultrapassa o muro dos blocos. “Sempre desejei uma cesta gourmet da forma como faço, com o coração. Ela chega quentinha na sua casa. Estou fazendo até macarrão caseiro e a estratégia é utilizar as coisas de Colombo. Um vinho da Colônia, queijos e salames. Tenho clientes lá do Ecoville que gostam no meu trabalho e faço tudo. Compro, monto, organizo e ainda entrego”, completou Danieli que já vendeu mais de 60 cestas em menos de dois meses de correria.

Poder empreendedor

Tornar-se comerciante de um dia para o outro requer alguns cuidados, especialmente no aspecto financeiro. João Luis Moura, é consultor do Sebrae, e neste período de pandemia percebeu o aumento de iniciativas empreendedoras. Esta ação ganhou até o nome de empreendedorismo por necessidade, quando a pessoa perde a principal fonte de renda e não consegue perceber no mercado de trabalho a possibilidade de retorno. “Este movimento vai se acentuar ainda mais, pois passamos por um período difícil da economia.

O brasileiro em geral, é muito criativo e isto é um ponto positivo, mas não existe um preparo com um capital de giro ideal, pois basicamente ela precisa vender para ter uma nova receita. Isto reforça muito o nosso jeito de correr atrás e não se abater muito com a situação”, disse João Moura.

Experiente no assunto, o consultor do Sebrae aconselha aos novos comerciantes que tenham muita paciência e controle da ansiedade. “Antes de dar um passo maior e até fazer um investimento, entenda bem quem é o cliente que você quer atender.

Faça testes com publicações nas redes sociais para perceber qual a saída dos produtos e até de preços. Ás vezes, a gente imagina que o valor é aquele, mas o mercado não paga isto. A correção é necessária e vai fortalecendo aquilo que é o diferencial dela”, salientou o especialista.

Fonte: Portal Viva o Condomínio

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